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Cantora Isa Pereira denuncia ser vítima de prisão arbitrária, racismo e tortura nos EUA


A cantora cabo-verdiana Isa Pereira esteve presa, durante sete dias na Cadeia Suffolk County House of Correction, em Boston, Estados Unidos. Isa diz ter estado algemada e passado vários dias sem comer, dando conta de momentos dramáticos, que indiciam “abuso por racismo e atentado aos direitos humanos” por parte de autoridades policiais e presidiárias norte-americanas. Aqui fica a denúncia, que agora circula por todo o mundo, feita por Isa Pereira, em jeito de crónica, descrevendo os dias difíceis por que passou entre o Aeroporto de Boston e as prisões onde esteve encarcerada. Tudo por erro de agentes policiais norte-americanos, sublinha.Cantora Isa Pereira denuncia ser vítima de prisão arbitrária, racismo e tortura nos EUA


GRITO, PEDINDO AO MUNDO QUE OIÇA MINHA DOR, ME AJUDE E QUE SE FAÇA JUSTIÇA!

SOU ISA IOLANDA, CANTORA DE CABO VERDE, SOU CIDADÃ DO MUNDO. MINHA ALMA CHORA DE DOR PROFUNDA. COLOCARAM-ME ALGEMAS, PASSARAM-ME POR 3 CADEIAS, ME FIZERAM PRISIONEIRA POR 7 DIAS NA CADEIA EM BOSTON-SUFFOLK COUNTY HOUSE OF CORRECTION.

COLOCARAM-ME A IDENTIFICAÇÃO DE PRESIDIÁRIA COM A DESCRIÇÃO “RAÇA:DESCONHECIDA”. PRECISO COMPREENDER PORQUE É QUE FUI TORTURADA PSICOLOGICAMENTE DE FORMA TÃO CRUEL? PORQUÊ DESTRUIR ASSIM O MEU SONHO DE DESENVOLVER A MINHA CARREIRA DE CANTORA? PORQUÊ DESTRUIR ASSIM O MEU SONHO DE SERVIR O MUNDO COM NOBREZA ATRAVÉS DO APRENDIZADO DA ARTE DE CANTAR, ATRAVÉS DA VOZ. UM SONHO DE UMA VIDA INTEIRA DESTRUÍDO. DIREITOS HUMANOS INTERNACIONAIS, CORPO DIPLOMÁTICO, EMBAIXADORES, DEPUTADOS, CONGRESSISTAS, ARTISTAS DO MUNDO INTEIRO, MEU PAÍS CABO VERDE, ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, PRESIDENTE DE CABO VERDE, EMBAIXADOR DE CABO NOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, EMBAIXADOR DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA EM CABO VERDE, GOVERNO DE CABO VERDE, GOVERNO DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, MUNDO INTEIRO ACUDAM MINHA DOR. EU NÃO MERECIA SER TRATADA COM ESTA CRUELDADE.

Interrogatórios e torturas

6 de Fevereiro (Sexta-Feira). Regresso aos Estados Unidos da América querendo dar continuidade à minha formação em aperfeiçoamento vocal em New York, desta feita querendo associar as aulas de canto à preparação do processo de gravação do meu próximo trabalho discográfico que pretendia fazer uma fusão entre a música tradicional de Cabo Verde e toda a experiência musical que estava a assimilar, aprender, enriquecer, amadurecer, começando a ser reconhecida, admirada e respeitada em Nova York, a partilhar com outros artistas, músicos americanos e de outras nacionalidades em New York, o Dom sagrado e a Bênção divina de Amar a Música, de Apreender a Cantar, de Amar Cantar, Amar o Palco, Amar Aproximar Povos com o meu cantar através da interculturalidade, Amar promover a Paz no Mundo através da Criatividade artística e de melodias, criar canções que toquem os corações em sítios mais recônditos e continuar a tocar a alma de todos com a minha Voz, Amor e Sentimento.

isa-pereira-01Chego no Aeroporto de Boston – Logan Aeroport, 6 de Fevereiro (Sexta-Feira) às 4.45 da tarde, apresento o meu passaporte com visto B1/B2-Múltiplas Entradas, o Polícia do Serviço de Fronteira dos serviços americanos pergunta-me “Porque voou para os Estados Unidos da América?” Respondo-lhe com todo o ORGULHO, “Sou Cantora de Cabo Verde, vim para dar continuidade as minhas aulas de aperfeiçoamento vocal, performance e começar o processo de gravação do meu próximo álbum”. Qual o meu primeiro choque quando o Policia chama outro colega e manda-me aguardar e de seguida pedem-me para seguir a linha azul do chão, aonde fui levada a uma sala, onde mais polícias se encontram no processo de investigação de passageiros para realizar novas perguntas, sessões exaustivas, humilhantes e massacrantes. Só via caras apavoradas a aguardar sua vez de serem chamados. Mandam-me sentar.

Chamam o meu nome, outra vez um outro Polícia me faz o mesmo início de questionário, porque fui aos Estados Unidos? Com quem vou gravar o álbum? Aonde vou gravar, em algum estúdio profissional? Quem são os músicos que irão participar? Como os vou pagar? São cidadãos americanos? Aonde tenciono comercializá-lo quando ficar pronto? Porque o Álbum tem de ser gravado nos EUA? Porque não gravo estando em Cabo Verde de lá para os EUA? Porque não vou grava-lo em Portugal assim como fiz o primeiro? Já cantaste nos EUA? Respondi, sim já fui convidada para cantar nas Nações Unidas em Nova Iorque para a Youth Assembly at the United Nations, e levar inspiração aos jovens para que sejam responsáveis e determinados em suas escolhas e tenham a consciência do seu valor no desenvolvimento da sociedade aonde estão inseridos e do Mundo; Recebi um outro convite para estar presente nas Nações Unidas na Conferência “Humanicy: Arts Crossing Diplomacy”, aonde fiz uma participação especial; já fui convidada a cantar para a United Nations African Mothers Association Gala de ajuda a erradicação de Ébola em África e para celebração do seu 30 aniversário, em New York, já estive a dar a conhecer a musica de Cabo Verde num espaço artístico em Village e também numa Universidade irei partilhar com estudantes o meu projecto WOMAN STRENGTH OF THE WORLD (Mulher Força do Mundo) passando mensagens de empoderamento da Mulher, igualdade de géneros e suporte às meninas através da musica.

O Policia manda-me sentar e aguardar… Chama-me outra vez e continuam os questionários, Como conheces-te a pessoa que irá ser o produtor musical do teu álbum que pretendes gravar nos EUA? Respondo-lhe que o conheci através de uma outra aluna da Escola que também frequenta as aulas de canto que conheci e nós trocando experiencial ela apresentou-me este produtor do mundo artístico de N.York, começamos a desenvolver uma relação artística muito motivadora e de grande aprendizado para mim, cheguei até a convidar este director musical americano para que juntos comigo e outros músicos americanos fossemos a Portugal-Ilha da Madeira, pois fui convidada a participar no primeiro encontro da Lusofonia- festival da Multilingual School, na Ilha da Madeira e representar CV como cantora e assim fomos a Funchal, realizando um concerto de Sucesso. Também disse ao Policia que tenho um outro projecto no fim do mês de Junho levar estes músicos americanos a Cabo Verde para juntos realizarmos concertos nas Ilhas e contribuir para ainda mais a aproximação destes dois povos que comemoram a sua independência em datas tão próximas 4 e 5 de Julho e poderem conhecer a realidade do meu país.”

Já estava nesse lugar de interrogatório exausta de tanto responder a questionários que chegou um momento que já estava a sentir-me tonta a querer desfalecer. Estive 6 horas nesse lugar massacrante. Vem a Inspectora Chefe e o agente da polícia que me estava a interrogar, descreve-a quem eu sou, o que pretendo fazer em relação agravar próximo álbum nos EUA, os sítios que já fui convidada a cantar em Nova York, seguem-se mais e mais e mais perguntas. A Inspectora pergunta-me quais os outros países que já cantei? Faço-lhe a descrição que já cantei em varias cidades no Brasil, Portugal, Canada, Itália… Ela me interrompe e pergunta-me em Itália pagaram-te bem? Tens mais alguma outra formação? Respondo-lhe tenho curso superior, sou licenciada na Universidade Católica de Belorizonte, no Brasil, e a Senhora Inspectora só olhava para mim com cara de estranheza e fez uma exclamação com a cabeça! Quando tencionas começar as gravações nos EUA? Vai ser agora? Respondo, Não agora vim de Cabo Verde com recolhas de canções, matéria-prima musical da tradição do meu país realizar aulas vocais adaptadas a elas e iremos então agora dar inicio a criação de melodias, arranjos, ensaios, é um processo por fases com aplicação directa às minhas aulas de canto. A Inspectora diz ao Agente Policial à minha frente “Não, ela vai ser deportada para o país dela no próximo voo, está a conhecer muitas pessoas, as pessoas apresentam-na a outras pessoas, vai conhecendo sítios para cantar. Não, ela vai de volta!”

Comecei a perder o chão, tonta, assustada já não conseguia raciocinar bem, mas continuava a me esforçar mentalmente para me aperceber de tudo o que estava a acontecer, deram-me um papel para ler e disse-me o Policia que agora iria repetir as perguntas e as minhas respostas seriam escritas e gravadas oralmente e depois eu tinha que assinar. Mandaram-me sentar de novo e mais uma vez aguardar, chamam-me para outra sala para ir abrir minha mala, minha carteira e saco de mão, o tambor tradicional de cola sanjon que levava comigo, revistaram tudo. Mandaram-me tirar as botas que tinha calçadas, tirar as meias, viraram as minhas meias de avesso, tiraram-me o casaco, o capucho, revistaram meu corpo, disseram-me para virar para parede, as mãos para trás e colocaram-me ALGEMAS. Perguntaram-me se queria comunicar ao meu Consulado no que assinei mais outro papel autorizando que o meu Consulado em Boston fosse informado.

Não sei como estava a conseguir aguentar tudo aquilo e gritava por dentro de mim de desespero, me dizendo NUNCA MAIS VOU CANTAR NA MINHA VIDA, porquê isto?

Sentindo-me apavorada e chorando perguntei aos Policias “Porque estão a colocar-me algemas?” “Eu não sou criminosa” “Para onde estão a levar-me?”. Responderam-me, “Sim, sabemos que não és criminosa, mas vais ter de voltar para Cabo Verde e como não temos lugar no aeroporto para aguardares até ao próximo voo que é só daqui a uma semana, vamos colocar-te em outro sítio”. Chorando desesperadamente pergunto, mas aonde vão me levar e me responderam, “Vais ver quando lá chegares”, pergunto mais uma vez porque tenho algemas nas mãos, respondem-me “Para a nossa segurança e a tua segurança, são as regras e são para todos”. As algemas me doíam nos punhos dentro do carro da Policia, com as mãos atrás das costas.

Chegamos ao sítio, lugar sombrio, abre-se um portão, mandam-me tirar as botas outra vez e ficar só de meias no chão frio, perguntaram de novo meu nome, minha data de nascimento. Era a primeira cadeia, colocaram-me dentro de uma cela e disseram-me “ Amanha viremos te buscar para levar-te a outro lugar” chorando sem forças, cheia de muita dor na alma perguntei, “Será num lugar como este? Isto é uma prisão!” A Policia respondeu-me “Não vai ser muito diferente disto”. Deitei-me no mínimo colchão no cimento tentando manter o pouco de lucidez que me restava e fechei os olhos.

Desde a chegada ao aeroporto, todas as horas de interrogatório e colocação dentro da primeira cela fiquei 14 horas sem alimento, sem me darem nada para comer, ao entrar na cela da prisão disse ao Policia “Aqui está frio” ele me responde “A outra cela está pior!”. De madrugada batia no portão de ferro da cela (eram 5 horas da madrugada) para ver se ele me acudia pois me sentia tonta e fraca, veio o Policia à porta da cela, disse-lhe que estava com fome que já tinha muitas horas sem comer que estava a sentir-me tonta e fraca ele me responde que não podia fazer nada, estava tudo fechado, que ia ver. Não mais apareceu.

De manhã ele foi substituído por outro guarda prisional a quem também pedi para me trazer comida porque estava a tremer, ele disse que ia tentar arranjar, demorou demasiado e quando me trouxe comida não consegui comer nada com vontade apenas de vomitar.

Às 10.30, vieram outros policiais, mais uma vez colocaram-me algemas levaram-me para outro sitio, não sei identificar porquê ir a este outro sitio e mais uma vez não me disseram onde era enquanto eu perguntava. Quando chegamos era mais outro centro de detenção, tiram-me outra vez os sapatos e as meias para revistar. Não conseguia parar de chorar de dor dentro de mim. Nesta segunda cadeia os policias que aí me deixaram foram substituídos por outros que mais uma vez colocaram-me algemas e aqui disseram-me que ia para uma outra cadeia que se chama SUFFOLK COUNTY HOUSE OF CORRECTION. Minhas forças já não as tinha, mas continuei a perguntar a todos os policias que se iam envolvendo nesta desesperante injustiça, “Porque insistiam em colocar-me algemas, Eu não sou Criminosa, Eu sou Cantora, Eu canto para o mundo, canto a minha terra, eu canto para servir ao Mundo e dar o meu contributo para que possamos viver num mundo de paz, já fui convidada a cantar para eventos relacionados com as Nações Unidas por três vezes, já cantei em vários outros países, na minha terra. Sou uma pessoa que se prevalece pela Dignidade. E o Policia me responde “Portando, estás a fazer um grande trabalho” “ Sabemos que não és criminosa, contacta o teu Consulado”. Fui o caminho todo cheia de medo, com ansiedade, em silêncio pensando. Meu Deus, o que está a acontecer comigo, porque estou a passar por esta tormenta desesperante. Dizia meu Deus eu não mereço esta provação, tanto sacrifício que já fiz na vida, tanta dedicação a Arte, tanto gasto financeiro investindo das minhas poupanças, apoio do meus Pais, do meu País, meus Familiares, Amigos, para atingir um sonho tão nobre de ser uma cantora de Excelência e de Sucesso, Porque isto????

Maus tratos na Cadeia de Suffolk County

Traumatizante entrar na terceira cadeia, Sábado 7 de Fevereiro, SUFFOLK COUNTY HOUSE OF CORRECTION, em Boston, aonde me deixaram 7 dias isolada do exterior, até o dia 13 de Fevereiro que seria o próximo voo para CV.

Entro na cadeia, elaboram o meu cartão de identificação de presidiária, onde está escrito “RACE: UNKNOWN” (Raça: Desconhecida. Eu, Isa Iolanda Brito Pereira, reconhecida cantora de Cabo Verde passei a ser “Raça: Desconhecida”!) com número de presidiária, ordenam-me que tirasse toda a minha roupa, inclusive as roupas íntimas (calcinha e sutiã) e me dão roupas de presidiaria (calças, blusa, calcinha, sutiã, meias e sapato) tremia tanto, chorava de tanta dor e só pensava NUNCA MAIS IREI APRENDER A ARTE DO CANTO , NUNCA MAIS CANTO NA MINHA VIDA, NUNCA MAIS SUBO NUM PALCO, MINHA CARREIRA, MEUS SONHOS, ACABOU TUDO.

A blusa de presidiária tem escrito nas costas “ICE” (Imigration Customs Enforcement) nas calças escrito WOMENS UNIT. Levaram-me para uma enfermaria da cadeia, para fazer exames de saúde, perguntaram-me se depois dessa apreensão se tencionava suicidar-me (mais um choque violento receber essa pergunta), se alguma vez pensei em suicidar-me, se tive contacto com pessoas de países afectados pela Ébola. Fazem-me um teste que me justificam ser para detectar se tenho tuberculose. Vejo um outro presidiário sentado com corrente nos pés e o meu medo e desespero só aumentavam ele olhando para mim. De seguida passam-me para a Médica que ao examinar-me diz que estava muito fraca e desidratada e vai buscar-me um copo de água.

Após os exames médicos uma Policia leva-me para um outro andar, abrem-se vários portões e o meu medo me fez sentir febre ardente ao ver tantas Mulheres, todas a olharem para mim, a analisarem-me, a comentarem, uma diz-me “Welcome” e começam às gargalhadas. Estive no INFERNO, passei os primeiros cinco dias sem me darem certos materiais de higiene pessoal (escova de dente, pasta de dente, sabão, ao ponto da presidiária que se encontrava na mesma cela que eu me aconselhar para lavar os dentes com sabão porque sabão tem lixívia), passei 7 dias apenas com uma calcinha que me deram à chegada da terceira cadeia, punha a lavar depois para a vestir de novo. Todos os dias pedia que me dessem os materiais de higiene e sempre ouvia uma desculpa.

Sentíamos frio dentro daquela cela ao ponto da outra presidiária colocar pensos higiénicos que mulheres usam quando estão menstruadas, nos buracos de onde saiam o ar e dizia-me para cobrir a cabeça inteira. Durante todas as noites, madrugada de 20 em 20 minutos passa o policia de serviço e coloca uma luz de lanterna em nós dentro da cela. Perguntei a senhora que estava na mesma cela que eu porque fazem isso a noite inteira e ela diz-me que é para ver se estamos vivas, porque presidiários já se suicidaram dentro das celas e que outros tentam fazer o mesmo.

Passava os dias todos dentro da cela nº 3 (que dividia com essa Mulher), com medo que me acontecesse alguma agressão física ou verbal, é um departamento da cadeia onde estavam mulheres ligadas à droga, criminosas, etc. Passei 7 dias sem conseguir comer (a comida, nem os animais são assim alimentados) e a cada dia me sentia mais fraca, mais triste, mais inconformada, mais injustiçada, num mundo que não me pertencia.

Ao conversar com uma das Médicas e a contar-lhe tudo o que estava a passar e a injustiça que estava a acontecer comigo, vieram lágrimas aos olhos dela e disse-me que não me dava um abraço porque não lhes é permitido tocar em presidiários, mas disse-me que tivesse muita força e que ficasse calada dentro do presídio, porque estava no meio de pessoas muito más que poderiam me provocar só para criar uma situação e me prejudicar. Ela disse-me para não dizer a nenhuma das presidiárias quem eu era, nem que era cantora, pois corria grande risco. Disse-me que quando saísse dali que não calasse a minha voz por nada deste mundo como tenciono fazer, porque assim eles é que estavam a vencer, que contactasse a quem de direito, disse-me o nome de um deputado e luta-se contra a injustiça que estava a sofrer.

De regresso a cela nº3, uma presidiária diz às gargalhas “Alguém aqui já foi deportada para as Ilhas? (gargalhadas) e continua “Eu não quero ser deportada para as Ilhas, eu quero ser deportada para a Inglaterra e mais gargalhadas. Me vinha à mente o tempo todo e buscava forças, pondo as poucas energias que tinha pensando e lembrando de NELSON MANDELA, da sua Força interior e resistência por ter sido encarcerado por mais de 20 anos, busquei forças nas escritas que tinha lido da Escritora, Cantora Maya Angelou, pensava em Chico Buarque de Holanda, e em pessoas muito especiais para mim. Evitei o tempo todo pensar na minha Mãe, meu Pai, meu irmão e Familiares e não chorar mais ainda e só pedia a Deus que os protege-se.

Visita do Cônsul de Cabo Verde e erro dos EUA

11 de Fevereiro- Quarta Feira- Recebo a notícia da visita do Cônsul de Cabo Verde e sua Colaboradora. Só chorava aos prantos ao ser informada dentro da cela desta visita, a mulher que estava na mesma cela que eu ( ela vomitava várias vezes dentro da cela), dizia-me “Devias estar é contente não a chorar, tu só choras o tempo todo, é a primeira vez que alguém é visitada aqui pelo seu Cônsul” e continuou “Desde de que estou cá nunca isso aconteceu com nenhum outro presidiário, quem és tu Iolanda?”. Descrever o que senti quando os vi é difícil. Um aperto de muita dor dentro de mim, naquele instante e neste momento ao relembrar e estar agora a descrever. As palavras de consolação que recebia do Senhor Cônsul e sua Colaboradoras dando-me força e falando sobre a minha saída daquele lugar não estavam a fazer nenhum efeito em mim, pois continuava em estado de choque com tudo o que estava a me acontecer e só lhes pedia para me tirarem daquele INFERNO. “Coincidentemente” quando a visita do Senhor Cônsul terminou e regressava à cela o Policia chama-me e dá-me uma bolsa com pasta, escova de dente e sabão, após eu ter pedido todos os dias sem retorno.

Sou chamada para a enfermaria e ser examinada outra vez. Graças a Deus estava de saúde, mas fraca porque não me alimentava, no que a enfermeira disse-me que tinha de fazer um esforço e fazer uma das refeições que eram servidas. Esperando que o Policia viesse para que fosse reencaminhada à cela nº3, colocaram-me sentada e quando ele chegou a outra Senhora policia disse-lhe “ Preciso de ti ”ele abriu o casacão e disse-lhe “aqui estou” e quando viu que eu estava lá comentou com a colega algo e a colega olhou para mim e exclamou “ Esta rapariga aqui, olha como ela está agora!”. Dentro do elevador entra uma médica, que pergunta ao Policia como ele está e o polícia responde em tom de zombaria “Não sei se cometo um homicídio ou um suicídio” e a médica saindo do elevador responde “Isso não queremos”. Meu medo continuou ainda mais a aumentar.

12 de Fevereiro – Quinta feira, de manhã, a mulher da mesma cela que eu começa a dizer-me “Vai haver uma grande tempestade de neve no fim de semana e o dia que está prevista a tua saída e será bem provável de cancelarem o teu voo. Se não vierem te buscar às 2 da madrugada significa que não vais”. Não respondia, ficava sempre em silêncio porque sentia que ela só tinha pensamentos negativos, a cada construção de uma frase ela colocava sempre um palavrão e como não queria alimentar a atracção negativa dela, minha boca ficava a maior parte do tempo fechada. Rezei muito nesse dia, pedindo a Deus dizendo-lhe que respeitava muito a Natureza, mas que por favor não deixa-se cair neve na sexta para que eu pudesse sair daquela tormenta, porque senão teria de permanecer mais uma semana naquela cadeia até o próximo voo.

13 de Fevereiro- Sexta Feira. Passo a manhã toda dentro da cela a rezar para que não caia neve. Quando são por volta 2pm, os Policias vão me buscar na prisão, levam-me para a secção de aonde se deixa as roupas de presidiária e vestir as minhas que tinha quando lá entrei. Mais uma vez colocam-me algemas para entrar no carro da polícia e levam-me ao aeroporto. Entramos pela parte da placa de avião e o segurança que abre o portão pergunta a um dos policiais que me acompanha dentro do carro da policia “Quem vai dentro do carro?” e a resposta “Female to Cape Verde” o segurança responde-lhe “De certeza ela estará lá mais aquecida do que aqui” e o Policia dentro do carro dá gargalhadas. Senti-me ainda mais HUMILHADA. Chegamos ao interior do aeroporto tiram-me as algemas à porta de entrada aonde fico a aguardar até a hora da partida do avião. Depois de 7 dias foi o momento de falar com a minha mãe em Cabo Verde. DOR TERRÍVEL de explicar.

O inspector chefe de serviço no acto de entregar-me os meus papéis, olha outra vez para os papeis e comenta com o colega “Vou matá-lo”. Ele se referia ao agente que me fez todo o processo de questionário à minha chegada a 6 de Fevereiro e quando eu olhei para ele, disse-me com uma cara comprometida que eu aguardasse, porque o seu colega fez um erro ao colocar “X“ em uma das minhas respostas. Disse-me para aguardar de novo e foi para dentro e não sei ele foi mudar o que nos papeis? Ele voltou deu-me os papeis e disse-me que o meu passaporte só me será entregue pelo pessoal de cabine da companhia aérea de Cabo Verde quando eu estiver dentro do avião, as portas do avião estiverem fechadas e o avião levantar voo de regresso a Cabo Verde, e pergunta-me se quero um café ou uma agua. Nesse momento da sua pergunta consegui dar-lhe um sorriso pela ironia que se impunha. Agradeci-lhe e disse-lhe “Não, obrigada”. Chegou a hora dos dois policiais levarem-me ao avião, minha dor profunda mantinha-me num estado de anestesia geral. Na entrada no avião e vendo uma integrante de cabine da companhia de aviação de Cabo Verde a olhar para mim…TRISTEZA SEM TAMANHO.

Apelo à intervenção da comunidade internacional

Desde de que era bebé, que viajo até os dias de hoje pelo mundo inteiro (Inclusive Estados Unidos da América que já fui muitas vezes), conhecendo vários lugares, conhecendo pessoas de diversos países, partilhando a Vida. Mas neste momento, todo um sonho foi destruído após esta traumática experiência, toda uma essência de querer cantar para o mundo acabou dentro de mim. Sinto-me tão triste e amargurada com esta marca que colocaram em mim. Eu não merecia tamanha destruição, tanto sofrimento que instalaram em mim. Prenderam e torturam a pessoa errada. Aonde estão os Direitos Humanos?

Peço por favor ao CORPO DIPLOMÁTICO, EMBAIXADORES, DEPUTADOS, CONGRESSISTAS, ARTISTAS DO MUNDO INTEIRO, MEU PAÍS CABO VERDE, ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, PRESIDENTE DE CABO VERDE, EMBAIXADOR DE CABO NOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, EMBAIXADOR DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA EM CABO VERDE, GOVERNO DE CABO VERDE, GOVERNO DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA E DO MUNDO INTEIRO QUE ACUDAM MINHA DOR. EU NÃO MERECIA SER TRATADA COM CRUELDADE!

Por ser Cantora, vou para a prisão? Por ser Cantora tenho de passar por todo esse processo de tortura psicológica? Por querer realizar fusão de culturas de dois países e gravar posteriormente o próximo álbum nos EUA, vou para a prisão? Por ser convidada a cantar nas Nações Unidas, numa Conferencia nas Nações Unidas, em Universidades vou para prisão? Por buscar a projecção da minha carreira artística com todo o Amor e Verdade põem-me na cadeia e sou assim destruída? Porquê? Minha alma chora de tanta dor. É o meu sofrimento, minha tristeza profunda, toda a tormenta recebida por um país que tanto admiro, respeito e vou continuar a Amar!

Por Amor à Musica, calo minha Voz. Não sinto vontade de mais cantar. Arrancaram da minha alma o que de mais precioso tinha no meu ser: a minha paixão pela Arte de cantar, levar a minha tradição cabo-verdiana e de outros países, felicidade a corações, praticando o bem.

Isa Pereira, cantora cabo-verdiana

 

fonte: asemana [26 Fevereiro 2015]

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