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Jota Jota: O adeus do mais jovem dos comandantes caboverdianos


foto: valdir alves

João José Lopes da Silva (JJ), combatente da Liberdade da Pátria

A 26 de Dezembro de 1947, nascia na localidade de Pé de Monte, na Freguesia de S. Lourenço, hoje Concelho de S. Filipe Fogo, um indivíduo de sexo masculino a quem foi posto o nome de João José Lopes da Silva. Quem o conhecia bem, não estranha que o menino acabaria por ser chamado comandante Jota Jota.
Filho de Ladislau Silva e Maria Silva. O pai, Nhó Lau, foi professor de uma das duas escolas do norte da ilha, na qual o filho foi seu auxiliar enquanto não estudava na Praia.

Jota Jota estudou no Seminário da Praia. Aos 18 anos depois de ter completado seus estudos liceais foi contemplado com uma bolsa de estudos pela Fundação Gulbenkian.
Os pais e restantes familiares já viviam nos EUA. Mas o jovem Jota já alimentava outros sonhos que só os visionários acalentam. Sua rota estava traçada.
Em 1968 ingressou na Universidade de Coimbra em Portugal para se formar em Engenharia Eletrónica. Consciente do ambiente que o rodeava, integrou o movimento estudantil que protestava contra o regime fascista e colonial, e fez parte de grupos de libertação nacional.
Em 1969 despoletou a crise académica que reivindicava reformas do ensino em França tendo chegado a Portugal e espalhado a toda a Europa Ocidental.

Desse movimento estudantil faziam parte alguns jovens portugueses que viriam a ser conhecidas figuras da política em Portugal como Alberto Martins Presidente da Associação de Estudantes de Coimbra, mais tarde líder parlamentar do PSD, o falecido Barros Moura deputado pelo PC e PS, Ribeiro Santos que viria a ser o Presidente da Ordem dos Advogados e junto do qual Jota Jota fugiu para a França e, ainda Mota Amaral que veio a ser Presidente do Governo Regional dos Açores e Presidente do Parlamento portugues, entre outros.
Com a morte de Salazar e com as expectativas defraudades por Marcelo Caetano, a crise estudantil agudizou-se, embora tenha assimilado alguns desses jovens quadros.
Na sequência dessa crise académica, Jota Jota foi preso pela PIDE-DGS e perseguido pela polícia política. Viu-se na iminência de fugir para a França o que fez via Espanha.
Da França onde chegou em Outubro de 1969, aguardou pelo seu bilhete de passagem, embarcou para Conacry, tendo ali chegado em Novembro desse ano, para se juntar ao PAIGC.
Dias depois seguiu-se para a Frente de Madina Boé tendo permanecido 4 meses no centro de instrução militar, antes de seguir para a ex-URSS, mais precisamente para a Academia Militar de Odessa, para receber instruções em artilharia pesada e lançamento de foguetes.
Seis meses depois regressava a Conacry tendo sido designado como comandante de artilharia pesada do recém-criado Terceiro Corpo do Exército, função que desempenhou durante 3 anos na Frente Tombali, no sul de Catió.
jota jota-valdir alvesNesse período participou em várias operações, última das quais na tomada de Guiledge junto à fronteira.
Foi uma vez atingido por estilhaços de granada, mas sem muita gravidade e teve sorte ao contrário de camaradas seus que viu perder a vida no mesmo ataque.
Em 1973, já com Amílcar Cabral morto, e com a proclamação da Independência da Guiné Bisau, foi incumbido de apresentar, na ONU, o projecto sobre a Realidade Colonial de Cabo Verde que muitos desconheciam, inclusive o próprio presidente da Guiné Conacry Sekou Touré.
Chegou à Onu , dois meses antes dos seus camaradas Abílio Duarte e José Araújo, com a finalidade de preparar o documento que Abílio Duarte expôs ao mundo explicando que Cabo Verde não eram ilhas adjacentes à Guiné Bissau como Bijagós entre outras e que, como tal, reivindicava a sua independência. A ONU entendia que Cabo Verde devia permancer na Quarta Comissão da Descolonização.
Posto isto, permaneceu nos Estados Unidos sensibilizando a comunidade caboverdiana sobre o conceito da Independência. Após o 25 de Abril foi chamado a regressar a Cabo Verde.
Da sua experiência de luta armada Jota Jota destacou a solidariedade e a lealdade que se verificava entre os combatentes caboverdianos e guineenses não se notando, na sua frente de luta, nenhuma diferença já que os riscos eram iguais e eram assumidos de igual modo por homens corajosos que partilhavam a mesma trincheira e tinham um único objectivo.
João José Lopes da Silva, emigrou-se em 1991 para os Estados Unidos onde permaneceu até 2007. Nesse período enquanto estudava trabalhou como taxista. Foi professor e formou-se na Matemática com Master em Educação bilingue e PHD como Conselheiro Escolar.
Deixou os filhos:
Leila da Silva Gonçalves, Ivan da Silva e João José Lopes da Silva Junior.
Paz à sua alma e honra a quem a honra merece. Mais um dos melhores filhos de Cabo Verde, é certo, juntamente com todos aqueles que se sacrificaram para um Cabo Verde digno, soberano e, como cantou o poeta, “respeitado pa mundo inteiro”.
E finalizamos este post citando o comentário de alguém que dá provas de conhecer o comandante na intimidade:
Honorio Chantre:
“A memoria do Comandante JOTA JOTA! COMBATENTE DA LIBERDADE DA PATRIA, o mais jovem dos comandantes caboverdianos na frente da luta armada na Guine. Um artilheiro temido pelo inimigo, para o combatente guineense era o homem curto peito burmedju. Homem culto, polémico, irreverente mas respeitador. Lutou por uma causa-CABO VERDE! ADIEUX CAMARADE! A Leila ,ao Ivan, a família meus sentimentos”.
E eu tive o privilégio de o cohecer melhor, faz precisamente um ano, quando por sua iniciativa fez-me deslocar a Cabo Verde para cobrir as cerimónias do Dia dos Heróis Nacionais. Estivemos na casa onde nasceu em Pé de Monte, visitámos Chã das Caldeiras e terminámos a nossa conversa na casa onde conviveu com a a sua esposa e hoje transformada num dos mais conhecidos restaurantes da cidade dos sobrados: o Tropical.
Aí relembrou-nos as peripécias com o famoso Juvenal de Linda Cega. Tive a oportunidade de falar com ele e outros camaradas de luta como Olívio Pires, Agnelo Dantas, Lela Guerrilheiro, Batcha, Luzia, Zézinha Chantre, Corsino Tolentino, e outros que não estiveram nas matas da guiné, como meu ex-professor de matemática no Liceu Domingos Ramos Élvio Fernandes, mas que igualmente tomou parte de um processo mais alargado da luta de libertação nacional..
Uma experiência enriquecedora e que tenho guardado, religiosamente, nos meus arquivos. E quem diria que ficou por publicar um livro a quem confiava a alguém de reconhecida “idoneidade moral”.
por Valdir Alves / facebook

 

O enterro está marcado para este sábado, 17, na ilha do Fogo, avança o vice-presidente da Associação dos Combatentes da Liberdade da Pátria (ACOLP).

 

Parlamento rende última homenagem ao Combatente Jota Jota 16 Janeiro 2015

 

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