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Kaka Barbosa: Meu amigo, meu companheiro de infância Emanuel de Jesus Braga Tavares, Manel di Nha Alice.


kaka-barbosa-2Meu amigo, meu companheiro de infância e juventude na Vila de Assomada, Emanuel de Jesus Braga Tavares, Manel di Nha Alice, Xanon, por causa dos olhos esverdeados como os de gato, o mesmo que chana, gato, no dizer do povo. A fotografia retrata o Emanuel do nosso tempo, do meu tempo..

Éramos inseparáveis na caça à galinha do mato, no futebol e nas tocatinas na praça central. Assomada entristeceu no dia em que ele foi chamado para tropa e dali enviado para a Guiné Portuguesa, onde cumpriu o seu tempo de serviço militar. Quando ele regressou foi minha vez de servir a tropa em Mindelo, e ficamos desencontrados durante anos. Quando ele se casou com a Ruth ofereci-lhe o meu violão novo mandado fazer no Mestre Batista como prenda de casamento, aquando da minha passagem pela Praia em 1972. Cordial e amigo como ele era, deu o violão emprestado a alguém que o partiu e ficou em conserto.
Das vezes que nos encontrámos, falávamos da situação da terra e liamos um o outro poemas da nossa autoria, poemas contestatários, além do crioulo, vários escritos em português. Ele era um grande espírito, uma voz que gostava de filosofar, recitar e cantar. Poucos tiveram a oportunidade de ouvi-lo cantar, ele, amante da música e da poesia, duas coisas que uniam os nossos destinos. Ainda dói-me por dentro a sua morte inesperada. Todos os meus poemas e canções parecem trazer a feição deste meu irmão das ribeiras Santa Catarina.
Quando recito poemas sinto o eco da sua voz a juntar-se á minha, indubitavelmente, ele sabia ordenar as palavras e conjugar o verbo poetar com alma e distinção. Ainda não consegui expressar no papel o muito que tenho para dizer acerca deste desaparecido irmão. Li depoimentos de algumas pessoas que o conheceram por via da política e que com ele conviveu em ambiente, quase de aproveitamento da sua disponibilidade, para servir determinados interesses políticos e ideológicos. Mas quem, na Vila de Assomada, levantou com ele desde a infância e juventude, conhece-o mais do que ninguém.

Emanuel-de-Jesus-Braga-Tavares

Em mim reside e existe o Manel de Nha Alice, Xanon, o cowboy Xénon – como ele dizia -, o brincalhão, o velocista, o extremo direito da Académica de Assomada, o caçador, o cantor e músico, o ginasta, enfim o rapaz alegre e de fino trato, bonitão e poeta-filósofo que não usava sapatos e que fumava muito.
Ele com a sorte de ter partido antes de mim para o paradeiro dos lúcidos e eu com o azar de ter de carregar a sua ausência.

Que a força cósmica o tenha na luz do grande foco universal, aposento dos poetas. Fica o meu sinal de homenagem àquele que faz parte da cadeira dos imortais da Academia Cabo Verdeana de Letras, por mim representado com muito orgulho.
Carlos Alberto Barbosa – Kaká Barboza /Rapizius

 

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