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(05 Julho 2014) JMN: “Estamos a realizar o sonho de Cabral”

(05 Julho 2014) JMN: “Estamos a realizar o sonho de Cabral”

O Primeiro-ministro não tem dúvidas que Cabo Verde está a realizar os sonhos de Amílcar Cabral. José Maria Neves fez esta afirmação na abertura da exposição “Amílcar Cabral: Pensar para agir e agir para pensar”, ontem no Centro Cultural do Mindelo. Esta exposição, enquadrada das comemorações do 39º aniversário da Independência, mostra textos e passagens dos discursos de Cabral que “dialoga” com os visitantes. As estátuas vivas a contar a história do país introduziram logo a seguir, um debate sobre a “Independência no feminino”.

arton101265A exposição dá a conhecer o pensamento de Amílcar Cabral para as novas gerações. Uma tarefa da Reforma do Estado, que está assim a assumir a cidadania e a desenvolver um novo relacionamento com a sociedade.

“Amílcar Cabral assumiu a sua cidadania. É mais conhecido como líder político ou estratega militar, mas foi um jovem que estudou com sacrifícios, contudo com empenhamento, que formou em agronomia em Portugal e dedicou grande atenção às secas e à erosão em Cabo Verde. Teve preocupação com a literatura e a cultura. Hoje gostaríamos de o lembrar basicamente como um jovem estudante, poeta e escritor, que doou a sua vida à causa da libertação de Cabo Verde, de Guiné Bissau e de África”, diz o chefe do Governo.

Para José Maria Neves, num momento em que se lança, a partir de São Vicente, as comemorações do 40º aniversário da Independência, é preciso lembrar que Cabo Verde se transformou de um país improvável em 1975 em uma nação possível. “Estamos a realizar os sonhos de Cabral”, afirmou, realçando que governar é estar ao serviço das pessoas.

Os sanvicentinos, que se fizeram presentes em grande número, puderam ler vários trechos de pensamentos de Cabral, mas também o que muitas personalidades mundiais escreveram sobre ele e os reconhecimentos que lhe foram e continua a ser atribuídos por todo mundo.

O encontro sobre a Independência no feminino, que aconteceu na sequência da exposição, mostrou o papel da mulher em todo o processo de luta, clandestinidade em Cabo Verde na luta em Conacri, Bissau e em outras zonas da África Ocidental onde o PAIGC tinha as suas bases.

Quatro antigas combatentes – Maria das Dores Silveira, Fernanda Fonseca, Ilídia Évora e Lina Tavares, relataram as suas experiências, enquanto a jovem Celeste Fortes (moderadora) fazia a ligação das histórias com o presente e o futuro de Cabo Verde. “Dialogamos com o nosso passado”, frisou.

Dona Tutu “Valeu a pena todo o nosso sacrifício” 05 Julho 2014

As motivações que levaram vários jovens a participar na luta armada para a Independência de Cabo Verde foram ontem reveladas por quatro mulheres em São Vicente. São histórias que emocionam e nos enchem de orgulho, como a de Dona Tutu, que neste depoimento na primeira pessoa, apontou a discriminação como a principal causa da sua luta.

dona tutu

“Os jovens não sabem o que passamos. Vivemos maus momentos. Eu tive a infelicidade de crescer na ilha do Sal onde havia uma espécie de apartheid. Havia cinema e praias para brancos. Não podíamos ir a esses lugares quando os brancos estivessem presentes. A população ficava revoltada. Era terrível”, conta, emocionada.

Segundo D. Tutu, os portugueses vinham trabalhar na ilha do Sal com contratos de três anos. Durante esse tempo, “recrutavam” uma mulher como empregada e amante. Uma faz tudo. E, na hora do regresso ao seu país, deixavam a mulher de “herança” para o substituto. “Isso me revoltava. Mexia muito comigo porque as mulheres não eram móveis ou objectos para serem oferecidas”, desabafa esta mulher que diz não ter na altura nenhuma noção de política, mas percebia que havia muita coisa errada.

Por exemplo, não percebia porque os portugueses tinham tantas regalias e os cabo-verdianos nenhuma, apesar de estarem na sua terra. Este facto levou D. Tutu a revoltar-se contra todos os brancos e, com isso, foi perseguida pela polícia política portuguesa (Pide). “Meus pais enviaram-me então para Dakar. Mas não conseguia viver com os franceses porque pensava que também eram maus. Foi então que tive os primeiros contactos com pessoas com ligações políticas e, mais tarde, com Cabral. Passei a entender que havia pessoas boas e más em todos os lugares”.

Percebendo o seu potencial, Cabral enviou D. Tutu para uma formação de guerrilha em Cuba. Era a única mulher num grupo de 39 pessoas. Concluída a formação, deveria voltar para Cabo Verde, mas os cubanos desistiram da operação porque era arriscada. Seguiu então para a União Soviética e, mais tarde, Alemanha, onde conclui a formação em enfermagem porque muitas mulheres morriam em Conacri por falta de cuidados.

Durante o tempo em que esteve em Conacri, tratou de muitos feridos de guerra. “Todos os dias recebíamos feridos. O irmão de Amílcar – o Fernando Cabral – recolhia os feridos e trazia para o hospital. Tivemos casos muito graves em mãos”, pontua esta mulher, que se fortaleceu na guerra. Viveu estas situações com pouco mais de 20 anos e só regressou a Cabo Verde depois dos 30. Mas não tem dúvidas em afirmar que “valeu a pena”

D. Tutu diz estar feliz com o país independente, por ver meninos a irem para a escola e com o desenvolvimento de Cabo Verde, como era o desejo de Cabral. “Ganhei a guerra. Mas também vejo que muita coisa não está bem. Se o Amílcar estivesse vivo ficaria triste com a nossa juventude. Quando éramos jovens, pensávamos em ter mais liberdade e lutamos por isso. Hoje os jovens pensam mais em festas, em divertir”.

asemana

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