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Júlio C de Carvalho: A língua materna pode ser oficializada sem que nenhuma variante seja erigida como norma.


Carta aberta aos Deputados da Nação.

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Júlio C de Carvalho Vice Presidente da UCID responsável pelas Relações Externas, Cooperação e Comunidades

Excelentíssimos Senhores Deputados da Nação
Eng. Antonio Monteiro – Presidente da UCID Dr. João Santos Luis – Vice Presidente da UCID
Caros colegas,
Durante alguns anos, como muito interesse, venho acompanhando os vários artigos e discussões nos jornais eletrônicos de Cabo Verde e da comunidade cabo-verdiana nos Estados Unidos, sobre a oficialização da língua cabo-verdiana. É uma questão que tem trazido polémicas—mas, precisamos debruçar seriamente sobre as vantagens e resolver as nossas diferenças—incluindo pedindo mais esclarecimentos se necessário.
Recentemente, uma pessoa com certa idoneidade inteletual, me alertou dizendo que…
“Se o nosso crioulo é a coluna vertebral da nossa identidade, não faz sentido mantê-lo no anonimato. É um dever cívico de todos nós desenvolvê-lo e valorizá-lo. Seria bonito se o projeto de oficialização fosse apresentado e aprovado, por unanimidade, por todos os sujeitos parlamentares. Não há que politizar a questão porque se há um elemento que nos unifica, esse elemento é a língua. “Portanto, ela não tem partido porque é de todos os partidos, de toda a sociedade.”
Por coincidência, dois dias mais tarde, li num jornal eletrônico cabo-verdiano que…
“A revisão [da língua cabo-verdiana] já foi votada no parlamento sob proposta do Partido Africano para a Independência de Cabo Verde (PAICV), no poder, mas foi chumbada pela União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID) e com a abstenção do Movimento para a Democracia (MpD).”
Senhores deputados e dirigentes da UCID,
Segundo o Boletim de Informação da UCID de 1983 “SR. EMIGRANTE”, publicado em Koeln, Alemanha, (20 mil exemplares foram distribuídos), a UCID define, delineia e articula, como parte da sua política global e prioritária…
“Um programa de ação compreendendo, entre outros… objetivos…incentivo do ensino da língua crioula e da verdadeira história de Cabo Verde, aquela que os nossos antipassados transmitiram até nós por intermédio das gerações sucessivas.”
O mesmo Boletim Informativo indica que desde a sua fundação, a UCID, indiscutivelmente, primou para…
“Divulgação e Valorização dos valores e da cultura cabo-verdiana.”

 

A UCID não pode abandonar o seu compromisso com Cabo Verde
Caros senhores,
A UCID não pode abandonar o seu compromisso com Cabo Verde ou com nossa língua e cultura porque realmente, a nossa posição é legítima, autêntica e não uma fabricação do percurso. Não é por acaso que a UCID defende, entre outras coisas, a regionalização do arquipélago.
Como os colegas bem sabem, venho lecionando línguas estrangeiras desde 1985 e sou investigador cientifico e professor orientador de dissertações (teses) de doutoramento em duas universidades americanas. Conheço o que estou aqui a falar!
Na qualidade de um dos vices presidentes da UCID, eu acho que a UCID, deve, indubitavelmente, apoiar a legalização da língua cabo-verdiana e gritar bem alto que a nossa posição nasceu com a fundação da UCID, o partido mais antigo de Cabo Verde.
Caros colegas,
Quando falo da legalização da língua cabo-verdiana, não pretendo falar de variante de Sotavento ou Barlavento. Estou a falar da língua nacional como um instrumento bem forte da nossa identidade. Aliás, a própria presidente da Comissão Nacional para as Línguas defende que…
“A língua materna pode ser oficializada sem que nenhuma variante seja erigida como norma. E, sendo oficializada, abre o caminho para que, de facto, se estude e se tome alguma posição acerca da padronização».
Todos, devemos ser orgulhosos da nossa língua e cultura, ambos instrumentos valiosos da nossa caboverdianidade. A oficialização da língua cabo-verdiana não implica o abandono da língua portuguesa—mas sim, uma complementaridade necessária para o desenvolvimento.
As línguas nativas são poderosas e devem ser abraçadas. Sendo a UCID um partido de inspiração cristã, colocando o progresso humano acima de qualquer outro progresso, eu, como militante da UCID, Cabo-verdiano, acadêmico em areas interdisciplinares e ciências sociais, apelo a reconsideração da UCID no sentido de apoiarmos aficadamente e sem receio, a oficialzação da nossa língua—instrumento principal da nossa identidade. Não devemos temer variantes regionais porque o nosso sentido patriótico ultrapassa a nossa ambição regionalista.

Na UCID não existe ambiguidade ou fanatismo, mas sim, pragmatismo e dever patriótico para que possamos “cumprir Cabo Verde”.

 
Professor – Doutor Júlio C de Carvalho
Acadêmico
Vice Presidente da UCID responsável pelas Relações Externas, Cooperação e Comunidades

 

Cidade de Lowell, Massachusetts, Estados Unidos de América,
aos 13 dias de Junho de 2014

 

 

 

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