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Opinião: Diferença entre um cabo-verdiano morrer em Cabo Verde ou nos E.U.A.


Coluna Semanal de Pedro ChantreA MORTE DO CABO-VERDIANO EM CABO VERDE E NOS E.U.A.

O prometido é devido. Após o período de defeso, regresso com a coluna de opinião, entendimento e visão sobre as comunidades e vivências cabo-verdianas.

Há uma grande diferença entre um cabo-verdiano morrer em Cabo Verde ou nos E.U.A.

À partida parece um assunto em que as pessoas não gostam de tocar mas, há factos que devem ser relatados para se entender como o cabo-verdiano vive este dilema dentro e fora de Cabo Verde.

Este artigo fala sobre os que partem, os que ficam e apresenta relatos. Uns cabo-verdianos mantêm velhas tradições e outros preferem converter os costumes, ser mais liberais e fazer da morte uma festa ou coisa parecida.

MUDANÇA DE COMPORTAMENTO

carla spencer lima

Carla Lima

Não só pelas diferenças de realidade mas, mesmo, dentro da cultura cabo-verdiana, as pessoas têm mudado de comportamento.

Esta tendência é visível em casas dos familiares dos defuntos, nas casas funerárias, na forma de vestir dos que vão dar pesamos, nas despesas que são feitas, entre outras atitudes.

Algumas individualidades, particularmente mulheres, têm usado das redes sociais para falar ou desabafar sobre este assunto, nomeadamente Carla Lima, mulher do primeiro-ministro de Cabo Verde, José Maria Neves; e Paula Barbosa, emigrante nos E.U.A., filha de “Lilixa”, conhecida empresária, dona de restaurante Panorama na cidade da Praia, em Cabo Verde.

COMO É QUE O CABO-VERDIANO VIVE A MORTE?

O cabo-verdiano encara a morte dependendo da região de origem, do local de residência ou meio e da postura de cada um.

Certas pessoas quando apanhadas pela morte de ante queridos são capazes de manifestar de forma intensa ou esporádica com choros tipo cânticos, gritos de desespero, desmaios, entre outras formas de reacção.

Há quem, também,  por tradição ou pretensão, mesmo sem conhecer familiares do defunto, prefere ir a casa de morto por uma visita e, há quem diga, por comes e bebes.

Outros preferem conter seus sentimentos. Não mostram ou têm jeito para dar nas vistas o que os vais na alma, simplesmente guardam o sofrimento.

 

O DESABAFO DA MULHER DO PRIMEIRO MINISTRO E FILHA DE EMPRESÁRIA

Carla Lima, mulher do primeiro-ministro de Cabo Verde, José Maria Neves, que recentemente perdeu a avó materna, “Ninita” Carvalho, na ilha de S.Vicente, desabafou que “Uma das coisas que me marcou (foram muitas) durante o funeral da minha avó foi a homenagem dos Mindelenses”.

Ao contrário, Paula Barbosa, emigrante nos E.U.A., em criolo revelou que “nten estado cada dia mas decepcionada ku manera ki nos criolos (principalmente na merca) nu ten encarado morte e interro”.

 

MORTE, CORTEJO FÚNEBRE E ENTERRO

Enquanto que Carla Lima, pela positiva, mostrou-se surpreendida ao relatar que “para a minha surpresa, e de forma positiva, quando o cortejo fúnebre passa, as viaturas param e os condutores e passageiros saem dos carros, para demonstrar condolências.”

Paula Barbosa reforça pa nha grande tristreza nten constactado ma hoje em dia interro tene mas importancia ki morto”

Carla, ainda, mostra que “foi com muita emoção que assisti, durante todo o percurso, casa-cemitério, ás manifestações e actos de solidariedade de estranhos, e ao mesmo tempo, de irmãos. É este tipo de atitude (com ou sem viatura) que dignifica o Cabo-verdiano”.

MAIS FESTA DO QUE PESAMOS NOS E.U.A.

paulinha

Paula Barbosa

Por sua vez Paula explica que na comunidade cabo-verdiana nos E.U.A. “Undi ki tipo e preço de caixão é preocupação principal, undi ki quanto mas pomposo e custoso funeral é, mas satisfeito pessoas ta fica. Undi ki mesas ten ki sta permanentemente recheado pamo “banquete” ten ki ser completo pa guentes ka bem papia dipos ma “kuza estaba fraco”!! Bebidas ten ki ten sempre en grande quantidade, de tudo tipo e tudo qualidade, “red label, black label, green label, gold label, blue label”, label, label, label … kela ki importa nton!!?!??!??!?”

Carla, acredita que a sua experiência com a morte da avó foi  “Uma atitude simples, de uma sensibilidade extraordinária, característica essencial da raça Humana e em particular da nossa cultura. É um marco louvável da nossa identidade. É o reconhecimento do nosso tesouro mais precioso: a Vida. É uma das formas mais pura de demonstração de respeito e amizade. É um carinho imensurável e um conforto para quem sofre com a perda de um ente amado”.

Paula afirma que Familiares ta cria situaçons desnecessarios, dividas ki podia ser poupado si es ka staba tao preocupado em mostra outros ma es podi mas”.

TRADIÇÃO MANTEM-SE EM CABO VERDE

Dona Ninita

“Ninita” Carvalho, na ilha de S.Vicente

Por fim, Carla agradece : “obrigada Povo de Sao Vicente! Obrigada aos meus amigos, e da família Carvalho, cujo apoio foi fundamental. QUERIDA VOVO NINITA, spiá pa nós”.

Enquanto Paula questiona: Nha guenti, undi ki nos valores bai para?? Nos dor, lamento e sofrimento gossi nton pa ser mensurado ten ki ser na mostra na ki caixão nu interra nos entes queridos? na quanta fartura nu proporciona nos visitas? na quantos caixas e caixas de bebidas nu tinha pa ofereces? na modi ki cada un bai elegantemente bistido, penteado e calçado?”.

VERDADEIRO VALOR

Ela, mesmo, responde: “Nao, nao, nao!! Ka sta bonito nao.Nos riqueza, orgulho e vaidade tudo ta caba hora ki nu bai para tudo baxu tchon, ki é fim de NOS TUDO, independentemente de nos condiçon!! Portanto nu para ku tenta ser mas ki kel ki nu é, nu para ku tenta mostra ma nu tem mas ki kel ki nu ten! Nu começa ta da verdadeiro valor a kuzas ki realmente ten valor!!”.

A Paula Barbosa apela:“Nta pidi nhas pais, si for o caso din parte des mundo antes des (ja ki ordem e lei de vida ka sta na nos controlo) e demais familiares ma dia ki nha hora de bai tchiga, pa nhos interran undi ki for menos custoso e doloroso pa nhos, ncre un caixao o mais simples possivel, di tabopan ta sirbi ja ki é so pa transporta nha corpo. Na hora di recebi visitas, por favor nhos resumi a apenas café, cha, agua e no maximo um sopa quente pa conforta estomago. E nada de luto pamo é ka cor de roupa ki sta bem mostra nhos sentimento e lamento pa nha desaparecimento fisico mas sim kel ki cada um de nhos verdadeiramente ta xinti ku nha partida”.

Ela, ainda, conclui dizendo que “Deus danu tudo muita saude pa nu vive inda pa longos e longos anos assi pa nu odja es nos sociedade ta amaduceri cada dia mas, retomando ses valores e ki nos fidjus e netos tem um mundo inda bem midjor ki es ki nu sta nel.”

Desta forma, com estes dois relatos, poder-se-à concluir o mundo em que vivemos e as diversas vertentes do cabo-verdiano.

Por: Pedro Ben’Oliel Chantre

 

 

 

 

 

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