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OPINIÃO: É HORA DO MINISTRO DA CULTURA COLOCAR OS PÉS NA COMUNIDADE NOS EUA


pedro-chantre300x200No dia 18 de Outubro, comemorou-se o dia da cultura e das comunidades cabo-verdianas. A comunidade Cabo-Verdiana dos E.U.A pergunta onde está o Ministro da Cultura de Cabo Verde, Mário Lúcio?

 

Antonio Pedro Monteiro Lima e Mario Lucio Sousa

Antonio Pedro Monteiro Lima e Mario Lucio Sousa

Desde 2011 que Mário Lúcio subiu ao poder, o Ministro da Cultura já visitou várias partes do mundo.

Ele esteve nos E.U.A., em Junho de 2012, para discursar na ONU (Organização das Nações Unidas) mas, ainda não encontrou um tempo para visitar a comunidade cabo-verdiana dos E.U.A., que muito tem contribuído para o país.

Muitos assuntos relacionados com a cultura cabo-verdiana na diáspora, particularmente nos E.U.A., estão pendentes e sem resposta ou solução.

Primeiro-ministro reclama

José Maria Neves

José Maria Neves

No dia 29 de Setembro deste ano, de visita pelos E.U.A., o primeiro-ministro de Cabo Verde, José Maria Neves, perante a comunidade cabo-verdiana de Florida, afirmou que “é hora de perguntar o que podemos fazer por Cabo Verde e não o que o país deve fazer por nós”.

Esta expressão, foi a citação mais conhecida de John Kennedy no seu discurso de empossamento em Janeiro de 1961, “ask not what your country can do for you – ask what you can do for your country”, anteriormente pronunciada pelo director da sua escola.
Em jeito de resposta, pergunta-se: Não será hora de Mário Lúcio, Ministro da Cultura de Cabo Verde, colocar os pés nos E.U.A.?

Não será, também, hora para o Governo apostar mais na cultura na diáspora? Desenvolver num plano cultural triangular entre os Ministérios da Cultura, Turismo e Comunidades ou Negócios Estrangeiros? Reunir as condições e investir de forma concreta e transparente nos agentes e produtos da nossa cultura?

Falta maior ousadia

O que o primeiro-ministro quer mais? Não basta a forma como os emigrantes e descendentes cabo-verdianos preservam e promovem as nossas raízes e costumes? Não bastam as remessas em dinheiro, encomendas e mercadorias?(Certamente um dos maiores segredos do Estado cabo-verdiano). Não contam as contribuições intelectuais de vários cabo-verdianos ou descendentes no exterior?

Acrescenta-se: Não será que falta maior ousadia de investimento cultural por parte do Estado? Será por falta de recursos ou capacidade para avançar?

A cultura deve ser visto como um produto económico. O primeiro-ministro diz reconhecer que Cabo Verde tem grandes talentos mas é preciso “transformar todos esses talentos em riquezas” já que “não temos recursos naturais”, acrescentou José Maria Neves.

Fragilidades do Ministro da Cultura

Quando se pensava que Mário Lúcio, por ser um artista, acredita-se, com elevado grau de sensibilidade cultural, poderia criar melhores condições para os promotores da cultura, o Ministro parece ter dificuldades em implementar uma acção cultural eficiente e abrangente, particularmente na diáspora.

Por o que a cultura representa e tem dado a Cabo Verde, não se sabe ao certo, nas representações diplomáticas, que são da dependência do Ministério dos Negócios Estrangeiros, se há mecanismos e verbas disponíveis para preservar e promover esta actividade.

Por vezes surgem “migalhas” que, segundo uma fonte junto das autoridades cabo-verdianas, acaba por ser uma “vergonha” por aquilo que as iniciativas merecem ou requerem.

 

Vida cultural na diáspora

A vida cultural cabo-verdiana na diáspora, particularmente nos E.U.A., é intensa.
Há um pouco de tudo e a nossa gente faz de tudo para preservar o sabor e costumes da terra mesmo com todo tipo de adversidades e constrangimentos.

Muitos dos nossos representantes no país que vão passando por estes lados já testemunharam este amor à terra de origem.

O presidente da república de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, no seu discurso do dia da Cultura e Comunidades Cabo-Verdianas, 18 de Setembro, disse que “devemos lembrar a dimensão cultural da nossa comunidade diaspórica que, mesmo longe, conserva as tradições mais vivas e fecundas” para reforçar que estas qualidades são “mantidas, quase intactas” e acrescentou que “têm muito contribuído para a garantia do sentido de pertença e de identidade da nossa Nação”.

Presidente da República manda recados

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Jorge Carlos Fonseca
Presidente de Cabo Verde

 

O presidente da república parece que está atento e vai mandando recados ao governo.

Ele é de opinião que deve-se ter em conta a “criação sistemática de condições objectivas (físicas, organizativas, de ensino e legais) e de incentivos que permitam aos criadores desenvolveram a sua arte com liberdade absoluta”.

Ainda, o presidente da República saudou  a “recente criação da Academia Cabo-verdiana de Letras, instituição congregadora dos escritores do país”.

O que não se entende é que o actual ministro, Mário Lúcio, de quem se esperava mais e melhor, em vez de preservar o “bom” acaba por se desligar ou traçar um corte radical com projectos anteriores, procurando trazer novas ideias, algumas das quais questionáveis.

Alupec fora da Agenda

veiga_dic_001Foram eliminados ou estão em “stand by” iniciativas ocorridas durante administração de anteriores ministros da cultura.

Como se sabe desde que Mário Lúcio entrou para o poder, deixou-se de falar sobre a oficialização da língua cabo-verdiana, apesar das desavenças, o que não era razão para travar ou eliminar o prémio Pedro Cardoso, que visa (va) incentivar a produção literária da língua cabo-verdiana em poemas ou prosa (livro).

Mesmo discordando de vários aspectos relacionados com o Alupec (Alfabeto Unificado para a Escrita do Cabo-Verdiano), que deve ser um processo natural que evolui sem pressão, não se pode cortar pelo prazer de cortar ou mudar só por mudar.

Divergências com a Sociedade Cabo-Verdiana de Autores

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Daniel Spínola
presidente da SOCA

Há que ter em conta que o estudo do dialecto cabo-verdiano ganhou terreno e peso na emigração, tem vindo a ser ensinado em diversas instituições, particularmente universidades, pelo que qualquer tentativa de corte ou distanciamento acaba por ser um atentado.

Outro dos assuntos que o Ministro Mário Lúcio parece criar obstáculos é a dinamização da SOCA (Sociedade Cabo-Verdiana de Autores), que poderá proteger e dar alguma compensação financeira aos artistas pelo seu esforço e como forma de incentivo pelo seu talento.

Existe grande divergência entre Mário Lúcio e Daniel Spínola, presidente da SOCA, sobre a questão de gestão dos direitos autorais em Cabo Verde.

Agentes da Cultura revoltados

Ao longo de séculos vários promotores da cultura cabo-verdiana marcaram a vivência nesta diáspora.

Muitos estão revoltados pela postura do Ministro da Cultura. No entender dos insatisfeitos, por Mário Lúcio ter estado nos E.U.A. e não ter comparecido na comunidade (acção rara de um governante) ou não ter dado uma justificação, é considerado um gesto de insensibilidade.

Lá diz o ditado “os homens passam, ficam as instituições” e neste caso sobrevive, uma das maiores heranças do povo cabo-verdiano no mundo, que é a cultura.

Um dos mais recente eventos foi “Our Roots – Nôs Raís”, realizado em 2012 na cidade de Bridgewater. Outras iniciativas de particulares, muitas que, infelizmente não têm tido continuidade, vão recebendo algum apoio da embaixada ou serviços consulares, se não em presença física dos representantes com um insuficiente apoio logístico ou financeiro.

Há que dar crédito a algumas instituições e pessoas que, nesta comunidade não deixam a cultura da terra morrer.

Diferença entre actual e anteriores Ministros da Cultura

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Jorge Tolentino e Manuel Veiga

Anteriores ministros da Cultura, Jorge Tolentino (actual Ministro da defesa) e Manuel Veiga, por várias vezes em curtos espaços de tempo visitaram as comunidades cabo-verdianas nos E.U.A.. Porque não Mário Lúcio?

No documento do Ministério das Comunidades que se pretendia apresentar na vídeo-conferência, entre Cabo Verde e EUA, no passado dia 5 de Outubro, intitulado “Estratégia Nacional de Emigração e Desenvolvimento”, a cultura parece continuar a ser o “parente pobre”. A conferência foi tema do anterior artigo “Tanta pressa para grande castigo”.

Afinal, o que o Governo pretende fazer com a cultura cabo-verdiana na diáspora? Quais os canais e formas de dinamização?

Conflito de Interesse – Banco da Cultura

Tem-se falado sobre Banco da Cultura, criado há dois anos. No dia 14 de Outubro deste ano o Ministro da Cultura, Mário Lúcio, anunciou que existe um montante de 217 mil contos do Fundo Autónomo de Apoio à Cultura (FAAC) para financiar projectos culturais aos artistas e agentes culturais cabo-verdianos.

Como vai ser distribuído este montante? Quais são os critérios de escolha? Quem são os responsáveis ou júri?

Uma fonte do Ministério da Cultura alerta que têm surgido projectos e financiamentos do Ministério da Cultura que põem em causa conflitos de interesses.

Dia da Cultura e Comunidades passou em branco

O dia da Cultura e Comunidades, embora tenha sido instituído há quase dois anos, em Novembro de 2011, praticamente passou despercebido na diáspora.

A comunidade cabo-verdiana de Luxemburgo (Europa) parece ter sido a única que deu a conhecer esta celebração com a presença da encarregada de Negócios da Embaixada de Cabo Verde, Clara Delgado.

Por todos os cantos por onde se passa e ouve-se falar da cultura, não importa de que género, fala-se da ingratidão do Ministro.

Contudo, os agentes da cultura cabo-verdiana vão dando provas da sua paixão pelas artes e nossas raízes.

Peso da Comunidade dos EUA

india pointO mais recente exemplo é o caso do filme “Contract”, de Txan Film Productions & Visual Arts, Inc. do produtor Guenny K. Pires., residente nos E.U.A., que venceu a quarta edição de “Cape Verde International Film Festival’.

Também nos E.U.A. há um forte movimento literário cabo-verdiano e outras actividades.

A música tradicional cabo-verdiana ocupa um lugar quase diário em lugares públicos e a todo o instante nos lares.

Na comunidade dos E.U.A. foi criado o primeiro festival cabo-verdiano no mundo para celebrar a independência um ano após, em 1976. O festival arrancou no estado de Rhode Island, na cidade de East Providence, e, actualmente, é realizado em Providence, na localidade de Fox Point.

Os laços e a relação cultural entre Cabo Verde e E.U.A. vêm desde a altura da escravatura. A riqueza conquistada pela família Brown que construiu Brown University, em Providence, uma das mais importantes universidades norte-americanas e do mundo, é resultado do dinheiro da escravatura originária de África. A cidade de Newport, em Rhode Island, foi o porto triangular de escravos.

Estes e outros motivos são razões mais do que suficientes para o Ministro da Cultura, Mário Lúcio, possa colocar os pés nesta comunidade e dar mais atenção aos nossos “agricultores” da cultura.

É HORA DO MINISTRO DA CULTURA DE CABO VERDE COLOCAR OS PÉS NA COMUNIDADE CABO-VERDIANA DOS EUA

 

Por: Pedro Ben’Oliel Chantre

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