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Charles Akibode: Sou homem responsável e, conhecendo como conheço as instituições da cultura em Cabo Verde


Carta aberta ao Ministro da Cultura, Abraão Vicente

Sou homem responsável e, conhecendo como conheço as instituições da cultura em Cabo Verde, já antevia os grandes desafios que haveria de enfrentar. Por isso nunca prometi milagres.

 

Charles Akibodé

Noutras circunstâncias seria desnecessário afirmar que nutro enorme respeito pelos membros do Governo deste país, inclusivamente por si – acredite –, mas neste momento em que acabo de ser demitido, via e-mail, corro o risco de ser mal interpretado ao dirigir-me à sua pessoa, através da comunicação social, admitindo que o poderia fazer diretamente no seu Gabinete, evitando, assim, trazer a público uma decisão que poderia perfeitamente morrer nos arquivos da administração.

O Jornal A NAÇÃO Online, no dia 02/07/2017, ampliado pelo telejornal da TCV do mesmo dia, noticiou a minha demissão do cargo de Presidente do Instituto do Património Cultural (IPC), depois de pouco mais de um ano à frente dessa Instituição, sem explicar com a profundidade necessária os motivos que levaram o Sr. Ministro a afastar-me desse cargo de forma tão insólita, sem sequer dar a si próprio tempo suficiente para esperar pelo meu regresso do estrangeiro onde me encontro, neste momento, com o seu conhecimento.

Ora, no mínimo, essa decisão, da forma como aconteceu, levanta suspeições de incompetência e incapacidade de liderança da minha parte à frente do IPC, pondo em causa uma imagem de seriedade e empenhamento no trabalho construído ao logo dos anos com muito esforço e dedicação.

Sr. ministro,

Pode acreditar que é com enorme dificuldade que me refiro ao meu trabalho e a mim próprio nos termos em que o faço neste momento, mas a divulgação desproporcional e infeliz da decisão de me demitir obriga-me a utilizar a comunicação social para explicar que fiz o melhor que pude para reorganizar o IPC, preparando-o para responder da melhor forma às exigências do Programa de um Governo que acredita na valorização da nossa cultura como uma via segura para o desenvolvimento do país.

Em pouco mais de um ano à frente do IPC saio de consciência tranquila e cabeça levantada pela contribuição que penso ter dado para a melhoria dessa instituição, preparando-a para os muitos desafios que tem pela frente.

Sou homem responsável e, conhecendo como conheço as instituições da cultura em Cabo Verde, já antevia os grandes desafios que haveria de enfrentar. Por isso nunca prometi milagres. Prometi, sim, trabalho, muito trabalho. E foi o que fiz de uma forma incansável, com os parcos meios que o ministério colocou à disposição do Instituto.

Poucos meses depois de ter sido nomeado, com a minha equipa, transformamos por completo o edifício-sede do IPC, conferindo dignidade a uma instituição-chave do Ministério da Cultura e do Estado de Cabo Verde.

Desenvolvemos (sempre em equipa) um “Guia Operacional” de apoio à elaboração dos inventários referentes ao Património construído, arqueológico, subaquático e museológico e fizemos o mesmo em relação ao património imaterial, no fundo, construímos as bases de uma política nacional de Inventário de caracter participativo e inclusivo, orientada para as Câmaras Municipais, para as Universidades e para a Sociedade Civil.

Estávamos a negociar o financiamento internacional de um software de apoio a um “Sistema Integrado de Gestão do Património Cultural e Natural” e desenvolvemos um site do IPC atrativo e de fácil leitura.

Conseguimos, em menos de seis meses, dois financiamentos da UNESCO, um caso excecional tendo em conta que a Agência normalmente aceita apenas um projeto por ano para financiamento.

Como é do seu conhecimento, conseguimos atrair mecenas e empresários estrangeiros interessados em financiar projetos culturais estruturantes para a Cidade Velha, Mindelo, Tarrafal e para o edifício onde nasceu Roberto Duarte Silva, em Santo Antão, acontecendo o mesmo com vários outros projetos distribuídos por várias outras ilhas.

Sou formado em História e nesta qualidade integrei o grupo de técnicos que organizou a candidatura da Cidade Velha a Património da Humanidade tendo sido o diretor científico do “Dossier de Candidatura”.

A nível internacional, participei na elaboração do “Dossier de Candidatura” do “País Bassari” (Senegal), inscrito em 2012 como património da humanidade, tendo participado igualmente no novo plano de gestão de Gorée (Senegal).

Elaborei o dossier de candidatura da Costa de Marfim, Grand Bassam, inscrito na lista do Património Mundial em 2013.

Como é do seu conhecimento, elaborei o dossier de Mbanza Kongo (Angola), que vai ser inscrito ainda este ano na lista do Património Mundial. O Sr. Ministro já recebeu, por escrito e de viva voz, os agradecimentos e o reconhecimento do Governo Angolano, através de Sua Excelência Dra. Carolina Cerqueira, Ministra da Cultura de Angola, pela colaboração que venho prestando a esse país, em nome de Cabo Verde.

Sou Membro do Conselho Científico Internacional da Rota do Escravo da UNESCO e expert dessa organização. Colaboro com o Fundo Africano para o Património Mundial (FAPM) destinado à capacitação de quadros africanos do Património, com vista à elaboração de dossiers de candidaturas, tendo orientado várias sessões de formação nas quais participaram vários técnicos cabo-verdianos, inclusive técnicos do IPC, em Porto Novo (Benim), Grand-Bassam (Costa do Marfim), Gorée e Dakar (Senegal), Luanda, Tchitundu’hulu e Mbanza Kongo (Angola), São Tomé (STP), Penda, Ibo, Maputo (Moçambique), Cidade Velha (Cabo Verde).

Como reconhecimento do meu trabalho recebi várias condecorações das quais destaco:

Em Cabo Verde:

Em 30/10/2014, fui condecorado com o Primeiro Grau da Medalha de Serviços Distintos pelo Sr. Primeiro- Ministro de Cabo Verde, pelo trabalho realizado com vista à Inscrição de Cidade Velha na lista do Património Mundial.

Em 04/07/2009, fui condecorado com a Ordem do Vulcão pelo Sr. Presidente da República de Cabo Verde pelo trabalho realizado a favor da Inscrição de Cidade Velha na lista do Património Mundial.

Em 29/01/2010 fui declarado Cidadão Honorário da Cidade Velha pelo Sr. Presidente da Câmara Municipal de Ribeira Grande de Santiago.

No estrangeiro:

Em 06/04/2014, fui condecorado com a Medalha de “Mérite Culturel” pelo Governo de Costa de Marfim, pelo trabalho realizado no âmbito da Inscrição de Grand–Bassam na lista do Património Mundial, sendo Cidadão Honorário da mesma cidade.

Em 04/11/2008 fui declarado Cidadão Honorário da Ilha de Gorée.

Confesso que não deixa de ser incómodo para mim poder estar a passar uma imagem de imodéstia, que eu detesto, mas, pior do que isso é deixar espaço para a destruição injusta da minha competência profissional, construída ao longo dos anos, com muito esforço e sacrifício.

São, efetivamente, muitos anos de trabalho, mas é também muita experiência acumulada que continuarei a colocar ao serviço de Cabo Verde porque este país merece.

Paris, 04/07/2017

 

-Asemana

 

Ministro da cultural demite Charles Akibode

 

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