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JOSÉ LEITÃO DA GRAÇA, O ETERNO RESISTENTE


david leite

David Leite

Homens de convicção sempre me inspiraram profundo respeito. Sempre admirei a coragem e a irreverência de homens e mulheres face às causas nobres e justas.

Cabo Verde acaba de perder um desses grandes homens: José André Leitão da Graça, anticolonialista, combatente da liberdade da Pátria, se calhar o último dos grandes idealistas da sua geração.

LeitaoDaGraca

Jovem estudante em Lisboa nos anos 50, pupilo de Amilcar Cabral, é este quem o apresenta aos condiscípulos em que já se revelava a veia contestatária face ao colonialismo e à ditadura salazarista. Mas entre a descoberta dos ideários políticos e o fascínio lisboeta, o jovem Zé Leitão ia-se distanciando dos bancos da faculdade: estudos, pouco ou nada. O pai, decepcionado, corta-lhe a mesada, e toca o jovem Zé a voltar para Cabo Verde!

Segue-se uma vida pontuada de peripécias que não lembrariam a um Steven Spielberg! Em 1960 “sopraram-lhe” que a PIDE ia prendê-lo, logo pensou em fazer-se ao mar, e uma traineira de pescas leva-o para Dakar. Sorte a sua não estar na Praia em fevereiro do ano seguinte, escapando assim a uma vaga de detenções que mandou para trás das grades um grupo de onze jovens nacionalistas como ele!

Mas a vida em Dakar não era nada fácil, quase mendigava, por isso o destino ainda o levaria mais longe: viveu 10 meses em Acra, ganhando a vida como locutor de português na Rádio Gana e “dando em cima” do colonialismo português. Daí regressa para Dakar.

Mas se Leitão da Graça era um fervoroso independentista, nem o próprio Amilcar Cabral, seu amigo e mentor em Lisboa, conseguiu convencê-lo a aderir ao PAIGC, e nunca sufragou a unidade Guiné-Cabo Verde. A “unidade” acabaria, aliás, por “desunir” os dois amigos, então fica na tua que eu ca fico na minha! E cada qual ficou na sua. Era de prever, José! A unidade tinha valor de “dogma” para o Amilcar, e política estraga amizades.

Instalado em Dakar com a família, Leitão da Graça continua fiel à UPICV, movimento fundado por seu irmão Aires em 1961, em Rhode Island. Nos seus comunicados, ataca com a mesma veemência o colonialismo português e a unidade Guiné-Cabo Verde, um projecto demagógico e insidioso aos seus olhos. Tanto lhe bastava para se incompatibilizar com os irmãos desavindos. O resistente nunca esqueceu o quanto lhe custou a ousadia: em 1963, conta ele, o PAIGC fez valer as suas influências junto das autoridades senegalesas para o mandar para a cadeia… ele que tinha escapado às masmorras da PIDE!

Leitão da Graça sente-se tanto mais impotente que as suas viagens ao estrangeiro em busca de apoio não compensam grande coisa. Desapontado com Moscovo, que apoiava o Amilcar, vira-se para Pequim, numa altura em que os dois grandes colossos comunistas se digladiam na arena internacional. Mas os chineses, nem sim nem não… também apoiavam o PAIGC, daí a sua reticência. Magra consolação. De maoísta só ficou a fama ao José, que nem um só yuan recebeu!

Imagino que o José tomou nota da histórica visita de Richard Nixon a Pequim, em 1972, selando a aproximação da pragmática China ao tradicional inimigo capitalista para isolar a União Soviética. Imagino a seu desalento quando o Comité de descolonização da l’ONU, por resolução de 5 de abril de 1974, reconheceu o PAIGC como único representante do povo caboverdiano. Pelos vistos, os mísseis russos SAM-7 do PAIGC contra a aviação colonial nas matas da Guiné ecoavam dais longe do que os comunicados que o resistente solitário endereçava às Nações Unidas…

E agora, José? Como posicionar-se face a um concorrente tão poderoso como o PAIGC, numa conjuntura internacional francamente desfavorável?

Lisboa, 25 de abril de 1974: cai o pano sobre a ditadura; o povo aclama o Movimento das Forças Armadas, que irrompeu da Guiné como por efeito boomerang e trouxe consigo o clamor da independência das colónias. Quando, em agosto, o líder da UPICV desembarca na Praia, ao fim de 14 anos de exílio, a tão propalada quão demagógica “unidade Guiné-Cabo Verde” é um dos slogans mais entoados nos comícios do PAIGC. As suas esperanças apoiam-se no referendo proposto por Spínola sobre o futuro do arquipélago, mas o PAIGC é categórico: referendo? Não querias mais nada? Aqui somos força, luz e guia, camarada!

Por outras palavras: pedra não joga com garrafa! Mas Leitão da Graça não se deixa intimidar, antes denuncia, de peito aberto, a prepotência dos “camaradas”, cujo apelo à “independência imediata e total” é também um aviso: nenhuma veleidade de oposição democrática será tolerada! O aviso encontra eco no apoio incondicional da tropa portuguesa que, ansiosa de voltar para casa, presta mão forte ao futuro partido único: o rolo compressor PAIGC-MFA esmaga tudo à sua passagem, bô ca crê bô tem ke crê, Tarrafal se refilares! Ironia da história, é com o apoio táctico e político dos inimigos de outrora que o PAIGC assenta, em Cabo Verde, a sua hegemonia!

Inconformado, acossado, lá partiu o José outra vez em busca de apoio, mas nem suecos nem chineses lhe estenderam a mão. Ao menos escapou das grades mais uma vez… mas custou-lhe saber que na sua ausência os seus companheiros foram parar ao Tarrafal, juntamente com os dirigentes da UDC (movimento saudosista da elite mindelense, que esperava do referendo uma administração autónoma sob a sombra tutelar de Lisboa). Com o beneplácito da esquerda revolucionária instalada no poder em Lisboa, estavam silenciadas as vozes incómodas e desbravado o caminho para a transferência de poderes ao PAIGC. Leitão da Graça viverá com o sabor amargo dessa desfeita, que desabafa, 28 anos mais tarde, no seu livro “Golpe de estado em Portugal: traída a descolonização de Cabo Verde!”

Apanhando-se em Portugal, por lá ficou o José André: formou-se, foi magistrado, deu aulas… Com a Txutxa Querido, sua inseparável companheira, criou o Camilo, a Ema e a Zulmira. Na sua ausência foi proclamada a independência sob a égide do PAIGC, mas o fogoso resistente não se resignou: mesmo longe, não cessou de denunciar os desmandos e prepotências do partido único, autoproclamado “força dirigente da sociedade e do Estado”.

Em 1986 o Dr. Leitão da Graça é convidado a regressar à Praia, quando a unidade Guiné-Cabo Verde já era coisa do passado porque os guineenses deram-lhe um golpe… de estado! A história dava razão ao incansável resistente, cujas convicções comunistas desde há muito se renderam a uma outra evidência: democracia de partido-único não existe, a não ser na esperança dos oprimidos! Por isso a sua luta continuava: irreverente como sempre, continuou a não dar sossego ao regime, e nada o silenciava.

E a democracia chegou! Foi inscrita na Constituição, e com ela o direito de empreender, de prosperar, de enriquecer. Mas… como os tempos mudaram, José! Debalde te lançaste no desafio das urnas – política, pelos vistos, já não valia a pena! Homem desprendido de matérias e honrarias, pouco à vontade nos meandros do capitalismo nascente, parece que te adaptaste mal aos novos tempos… Recebeste com humildade o estatuto de “combatente da liberdade da Pátria” que te outorgaram. Na velhice foste agraciado com a medalha Amilcar Cabral, e tu, nem aí!

Era assim o resistente sem medo, de convicção robusta e consequente. Depois as pernas foram-lhe ficando trôpegas, e mais difusos os souvenirs dos velhos tempos em que os oprimidos, porventura (des)iludidos por utopias marxistas-leninistas e ditaduras proletárias, ao menos batiam-se pela liberdade, e acreditavam, como ele, num mundo mais justo!

Dissipados os credos e valores que defendia o velho combatente, tento ler nos seus pensamento mais recônditos: – “Terei vivido, e acreditado, numa utopia? Mas a utopia não é um direito? ”

Até que um dia fechou os olhos – e partiu. Sem contas a ajustar com a vida, sem dever nada aos soberbos e altivos senhores das ilhas.

Quem pensar que José Leitão da Graça não soube viver com a sua época, lembre-se dele como o resistente sem medo, o advogado que ele foi por um mundo mais justo. Porque um mundo mais justo não é uma utopia – é um direito!

Mantenhas da terra-longe, 15 de setembro de 2015

David Leite

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