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Pedro Pires: “A História de África tem sido sempre mal contada”


40 anos de Independência: “A História de África tem sido sempre mal contada”, diz Pedro Pires

O ex-Presidente e antigo primeiro-ministro recorda as negociações para a independência do país, na década de 1970 e fala sobre o processo de descolonização. Em entrevista à agência Lusa aborda também a história recente de um país que também é visto como um modelo de democracia em África.
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Há aquele ditado, várias vezes por si citado, sobre a falta de historiadores que glorifiquem os leões em vez dos caçadores, de Joseph Ki-Zerbo. A história tem sido muito mal contada?

Em relação ao ditado, africano, com alguma razão. Em relação à História, ela própria tem sido sempre mal contada. A História que, muitas vezes, é apresentada e que precisa de ser revista é a dos vencedores. Os vencedores apresentam as suas versões, as suas razões e os seus objectivos. Está claro que o vencedor vai apresentar isso da forma em que ele não se apresente como um agressor, ou como aquele que pratica a violência, mas sim como aquele que defende uma boa causa. Mas é preciso saber se as boas causas são efectivamente boas causas. É isso que levanto. Vamos repensar tudo o que foi dito e escrito durante todo esse tempo, porque, quando nós desejamos trabalhar para a reconciliação da Humanidade, está claro que temos de ver vários aspectos e um deles é esse, da História, como cada um de nós está colocado e visto pela História e na História.

Nesse âmbito, essa citação é contestatária, mas creio que tem muita razão de ser. É preciso rever tudo isso, rever as histórias e repor, ou tentar interpretar as coisas, no sentido da reconciliação do diálogo e da reconciliação das várias famílias da Humanidade.

De qualquer forma, Cabo Verde é um país vencedor, pois ganhou a independência. Mas há 20 ou 30 versões sobre a sua História…

Há várias e de acordo com as palavras dos intervenientes. Cada um tem a sua versão. Caberá ao historiador, ao investigador, que certamente se colocará com um certo distanciamento e objectividade, recolhendo os factos todos, a partir daí, tentar elaborar a História que traduza mais ou menos a realidade das coisas. Há dias, alguém dizia ser preciso muito cuidado com a memória. O que temos visto é mais a memória. A pessoa apresenta a memória que tem dos factos e da sua história. Mas agora nós podemos falar da História, que é ligeiramente diferente da memória. Temos direito à memória e à história, mas, para a elaboração de uma História que sirva de referência para todos, é ligeiramente diferente da recolha e da apresentação das memórias.

O que haverá escrito nos manuais escolares de História em Cabo Verde dentro de 20 ou 30 anos?

Isso não sei (risos…). Não sei se estarei cá para ver isso. O que acho é que me cabe o dever de deixar as minhas memórias. Mas não pretendo escrever a História. Dessas memórias, os historiadores poderão extrair elementos para elaborar a História.

Foi Primeiro-ministro, foi Presidente da República e esteve, antes da independência, ligado à luta de libertação. O que representa para si ter uma vida inteira dedicada a uma causa? A libertação, de um lado, e o desenvolvimento de um país, após a independência?

Não representa muita coisa. Cada um de nós deve ter um sentido na vida e um de vida. Eu escolhi esse, o de lutar pela independência do meu país, de lutar e participar na construção de um Estado independente. Depois disso, escolhi agir, de acordo com as minhas responsabilidades para estimular e facilitar o desenvolvimento do país, a construção do bem-estar dos cabo-verdianos. Agora, o que é que isso nos trás? Se isso nos traz satisfação? Claro que sim, porque todos nós precisamos de algo na vida, que é sentirmo-nos realizados. Quer dizer, fazemos uma opção e queremos que ela tenha os resultados que esperamos.

Foi “vítima” de muitos sacrifícios pessoais?

Não diria tantos sacrifícios. Pessoalmente, hoje não tenho o sentimento de ter feito sacrifícios extraordinários. Vivi uma vida, orientada num certo sentido. Procurei agir com coerência e de forma que as minhas opções, as minhas escolhas, tivessem sucesso. A partir daí, não sei se posso reclamar ter feito sacrifícios a mais. Vivi a vida de acordo com as circunstâncias.

A Guiné já tinha sido reconhecida por Portugal (10 de Setembro de 1974) quando decorreu a reunião de Lisboa (19 de Dezembro de 1974). As negociações de Londres e de Argel frutificaram. O acordo assinado em Lisboa foi um ponto de viragem com as ex-colónias?

Vamos ver o que constituiu o Acordo de Argel. Constituiu um ponto de viragem em tudo aquilo que podemos considerar o sistema colonial português: um passo para o reconhecimento das independências das antigas colónias. É um ponto de mudança de paradigma político que é passar de colónia para Estado independente. Esse aspecto, essa alteração, essa mudança, é extremamente importante. Do lado de Portugal, também é uma mudança grande, porque há uma reconstituição. Afinal, o que é Portugal? Havia diversas opções e elas afinal levaram às independências. A independência da Guiné, o reconhecimento do Estado da Guiné-Bissau, foi um passo muito importante na caminhada da independência dos outros países – Angola, Cabo Verde, Moçambique ou São Tomé e Príncipe.

Mas houve negociações simultâneas, ao mesmo tempo, de modo que tudo aquilo foi um processo complexo. Mas o primeiro passo foi com a Guiné-Bissau e daí a importância do acto de reconhecimento do Estado da Guiné-Bissau.

As negociações foram duras ou houve abertura de Portugal?

Estando agora à distância é complicado recompor os sentimentos e as percepções de então. Foram umas negociações, chamemos-lhes assim, ao mesmo tempo interessantes e inteligentes. Cada um esgrimia os seus argumentos em favor das suas teses. De modo que foi, para nós, para mim, interessante e enriquecedor do ponto de vista humano. Mas permitiu-me também aprender muito a negociar e a defender os meus pontos de vista e do meu partido (PAIGC). Do outro lado estão os meus interlocutores. Do ponto de vista humano foi bastante rico. Conseguimos criar relações de entendimento e, por fim, de amizade. Permitiu-me alargar a minha visão das coisas e ter, hoje, esses meus antigos interlocutores como amigos pessoais. É bem possível que seja raro isso acontecer.

O processo de descolonização, comparando com outros países, foi exemplar?

O de Cabo Verde foi interessante e diferente dos outros, porque os compromissos também foram diferentes. Os contextos das negociações também foram diferentes. Isso permitiu-nos chegar a um compromisso sobre a transição. Esse é o lado mais interessante: o compromisso sobre a transição. Num compromisso há sempre concessões e criámos todas as condições para uma transição serena. Foram também criadas as condições para o futuro das relações com Portugal. Se, de um lado, conseguimos realizar os nossos objectivos – o estabelecimento de um período de transição e as condições para o acesso à independência –, por outro, deixámos abertas todas as possibilidades de desenvolvimento das relações futuras entre Cabo Verde e Portugal. Até porque Cabo Verde não poderia dar-se ao luxo de ter posições extremas e criar situações em que pudesse ficar isolado na arena internacional ou reduzir o número dos seus aliados e parceiros internacionais. Era, de um lado, a independência, e do outro, deixar o caminho aberto ao relacionamento amigável e útil entre Cabo Verde, Portugal e outros países interessados nesta região do Mundo.

Almeida Santos, Mário Soares, Vasco Gonçalves e Melo Antunes foram “personagens chave” nas negociações. À distância, como vê a forma como Portugal evoluiu em relação às antigas colónias?

Não me compete fazer essa avaliação política. Competirá aos portugueses e seus historiadores fazerem essa avaliação dos resultados. Eu entendo o seguinte: 40 anos depois, devemos ter em conta a complexidade do contexto em que se processou o processo de descolonização. Em Portugal tinha havido uma mudança de regime, e o novo regime não estava consolidado. Antes pelo contrário. Vivia-se uma situação de luta intensa pelo poder e pela imposição da natureza das instituições do Estado. Era uma situação difícil e complexa e, ao mesmo tempo, havia que negociar com os movimentos de libertação dos vários países. E, para acrescentar, ainda havia a situação em Timor. Negociar nessas condições é extremamente complicado e não é fácil e penso que há que dar atenção a esse lado. Só poderemos dizer que os negociadores e os dirigentes portugueses da altura souberam negociar, sair dessa situação e criar as condições para o novo Portugal, mas também para as futuras relações com as ex-colónias. Há que analisar as negociações tendo em conta o contexto complexo e complicado por que passava Portugal e os dirigentes portugueses. Aí só posso dizer que os negociadores portugueses na altura fizeram um trabalho muito bom. Se nós pensarmos nisso caso a caso, não dá. É o seu conjunto. Os negociadores portugueses defenderam, acredito, os interesses de Portugal e saíram-se bem dessas negociações. Daí o meu respeito por qualquer deles: Almeida Santos, Mário Soares e pelo malogrado Melo Antunes, de quem fui muito amigo e com quem me encontrei várias vezes noutras circunstâncias. E o próprio general Vasco Gonçalves que, pela sua personalidade, foi um grande impulsionador da descolonização.

Falou há pouco do contexto difícil que viveu Portugal nessa altura. Curioso é o facto de Cabo Verde se ter tornado independente a 05 de Julho de 1975. Mais um pouco, apanhava o “Verão Quente” desse ano…

Já lhe disse que não entro por aí (risos…). Não entro nessas situações críticas. Prefiro ficar de fora. Mas isso não significa que estivéssemos alheados do que se passava em Portugal. Falámos com alguns protagonistas de então, entre eles Melo Antunes.

Não. Nós acreditámos sempre que os compromissos são para respeitar, para observar e que não haveria problemas nenhuns. Nunca tivemos esse pressentimento. Para nós, as coisas iriam até ao fim sem grandes problemas.

O almirante Almeida d’Eça foi importante na transição?

Foi extremamente correcto como Alto Comissário. Procurou dar o contributo que se lhe pedia. Acho que devemos considerar e apreciar – eu tenho um enorme apreço – o trabalho que fez. Do seu lado, o Alto Comissário deve ter também a ideia de que nós agimos e facilitámos esse período de transição para que chegássemos a bom porto.

Lusa / 24 de Junho de 2015

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